segunda-feira, 14 de março de 2011

Devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós


Para a perfeição e união com Jesus Cristo precisamos despojar-nos de tudo o que de mau existe em nós” (TVD, art. 78) afirma  o grande apóstolo da Virgem Maria e da Cruz, São Luís Maria Grignion de Montfort, defendendo essa verdade como fundamental para uma Verdadeira Devoção para com a Santíssima Virgem Maria. No entanto, essa afirmação provoca em nós o seguinte questionamento: conhecemos o nosso fundo mau ou temos ainda um conceito muito elevado de quem realmente somos? Buscaremos por meio de algumas reflexões, sobre nós mesmos, entender o quanto é necessário o conhecimento de si, de nossas misérias e limitações humanas, para alcançamos a perfeição em Cristo.
Primeiramente é preciso saber que o conhecimento de si mesmo é profundamente necessário para o progresso na vida espiritual. Conhecimento não só de nossas boas qualidades, mas também, de nossas qualidades ruins, ou seja, do nosso fundo mau.        
O conhecimento de si mesmo é um exercício espiritual que nos faz enxergar à luz do Espírito Santo o nosso interior, os sentimentos bons e ruins que habitam no mais íntimo do nosso ser. É por esse motivo, que uma alma que deseja alcançar a perfeita união com Jesus deve debruçar-se de coração contrito sobre o que verdadeiramente é - eu atual-, buscando chegar à plenitude do que Deus quer ela seja - eu ideal (NOGUEIRA; LEMOS, 2006).
Em sua sabedoria divina, Montfort entendia perfeitamente essa necessidade eminente do conhecimento de si mesmo para alcançar uma verdadeira devoção a Nossa Senhora, elegendo esse exercício espiritual não só com um requisito, mas também como um maravilhoso efeito desta consagração (cf. TVD, art. 213).
Nesse contexto, Montfort nos ensina que para nos despojar de nós mesmos é preciso seguir alguns passos:

Em primeiro lugar, (é preciso) conhecer bem, pela luz do Espírito Santo, o nosso fundo mau, a nossa incapacidade para qualquer bem útil à salvação, a nossa fraqueza em todas as coisas, a nossa permanente inconstância, a nossa indignidade de toda a graça, a nossa iniquidade em toda a parte (cf. TVD, art. 79).

Para que possamos entender esse primeiro passo para o despojamento é importante compreender que só se reconhece indigno, fraco e incapaz de receber qualquer graça, aquele que se reconhece pequeno, e que busca na virtude da Profunda Humildade da Mãe de Deus a coragem de se “despir” do homem velho e da mulher velha, rasgando o seu coração diante do Senhor e de Sua Augustíssima Mãe. 
Com o objetivo de facilitar a nossa compreensão sobre o fundo mau que existe em nós, Montfort nos compara a alguns animais, entre eles, o orgulhoso pavão, os sapos apegados a essa terra, a serpente invejosa, ou ainda, aos porcos gulosos, aos tigres coléricos, as tartarugas preguiçosas, aos inconstantes cata-ventos (cf. TVD, art. 79). Em todos eles, conseguimos enxergar as semelhanças com o orgulho que envenena a nossa alma, o apego às coisas do mundo que nos impedem de seguir a Deus, e tantas outras fraquezas que nos fazem reconhecer-nos como absolutamente nada diante do Altíssimo.
Em segundo lugar, para nos despojar de nós mesmos, nos ensina Montfort (cf. TVD, art. 81), é preciso:

[...] morrer todos os dias. Isto quer dizer que é preciso renunciar às operações das potências da nossa alma e dos sentidos do nosso corpo, ou seja: temos de ver como se não víssemos, de ouvir como se não ouvíssemos, de nos servir das coisas deste mundo como se delas não nos servíssemos (cf. 1 Cor 7, 29-31).

              Quanto a essa mortificação dos sentidos, nos diz São João da Cruz: “Se alguém afirmar que pode ser perfeito sem a mortificação externa, não lhes deis crédito, nem mesmo que faça milagres para comprovar, pois é pura ilusão” (CARVALHO; CARVALHO, 2010). Esse santo acrescenta ainda, que com um só ato de mortificação podem-se praticar muitas virtudes. Assim, aquele que busca a perfeição em Cristo deve buscar a mortificação, o que vem a ser o mesmo que morrer todos os dias, crucificando as suas próprias vontades e desejos para que prevaleça a vontade de Deus em todas as suas ações, por menores que sejam.
              Em terceiro lugar, continua Montfort,

É preciso escolher dentre todas as devoções à Santíssima Virgem, aquela que nos leva mais a esta morte para nós próprios, porque esta é a melhor e a mais santificante. [...] Na natureza há segredos para fazer operações naturais em pouco tempo, econômica e facilmente. Na ordem da graça existem também segredos para fazer operações sobrenaturais em pouco tempo, suavemente e facilmente (cf. TVD, art. 82).
             
              O segredo de alcançar a santidade em menos tempo e de forma perfeita é justamente consagrando-se inteiramente e sem reservas a Augusta Rainha do Céu e da Terra, para assim pertencer perfeita e unicamente ao Seu Diviníssimo Filho, Jesus Cristo. Quanto mais uma alma busca o conhecimento e, por conseguinte o desprezo de si mesmo, despojando-se de todo mau que nela habita mais rapidamente essa alma consegue encher-se de Deus e por meio de Maria Santíssima tornar-se plena da graça divina.  Esse maravilhoso segredo consiste, portanto, em deixar-se modelar por Maria Santíssima, conferindo a Essa Amável Senhora o direito já concedido por Deus, de operar magnificamente em nossas almas e sermos por Ela preenchidos de Suas virtudes. Mas, para isso é antes necessário, como vimos acima, deixar morrer o homem velho e a mulher velha, esvaziando-se do que há de mau em nós, para que a Imaculada possa habitar, viver e glorificar o Seu Amadíssimo Filho em nós!
              Por fim, deixamos aqui algumas pistas para reflexão,  que nos levarão a um profundo conhecimento de nossa miséria, ressaltando a importância dessa prática na Quaresma, tempo litúrgico vivenciado por toda a Igreja, que busca no jejum, oração e esmola, praticar a Mortificação dos Sentidos e a Caridade Ardente, virtudes da Virgem Maria.

Para refletir...
1º Todo homem tem desejo natural de saber; mas, que aproveitará a ciência sem temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo; Aquele que conhece bem se despreza e não compraz em humanos louvores;
Não há mais útil estudo do que conhecer-se perfeitamente e desprezar-se a si mesmo;
3º Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, é prova de grande sabedoria e perfeição;
4º Ainda que não vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem;
5º Todos nós somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo (Imitação de Cristo, 1979).

       Para que possamos crescer em nossa caminhada espiritual, supliquemos humildemente o auxílio da Estrela do Mar, para que Ela nos guie nesse árduo e doce caminho de santidade, tendo a certeza que Ela é, sobretudo, Mãe de Misericórdia, e poderosa intercessora junto ao Seu Filho e Senhor, Jesus!
             
CONSAGRA-TE!

Referências:

CARVALHO, César Augusto Saraiva de; CARVALHO, Mara Lúcia Figueirêdo Vieira de. CONSAGRA-TE! Espiritualidade Mariana na Vida dos Santos. Natal: Mater Dei Gráfica e Editora, 2010.

IMITAÇÃO de Cristo. São Paulo: Paulus, 1979.

MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2002.
NOGUEIRA, Maria Emmir Oquendo; LEMOS, Silvia Maria Lima. Tecendo o fio de ouro: caminho Ordo Amoris. Fortaleza: Edições Shalom, 2006.



Maria Cristina é membro aliança nível 2, casada e mora no Condomínio Mãe de Deus.








 
Para citar esse artigo:
Maria Cristina Pereira de Paiva - "Devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós"
Fraternidade Discípulos da Mãe de Deus
http://consagracaomontfortina.blogspot.com/2011/03/devemos-esvaziar-nos-do-que-ha-de-mau.html
On line, 14/03/11, às 22:35.

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